Maria João Marques
Jornal Público – 04-10-2023
O prédio de Aveiro do PCP: uma
história pouco edificante muito para além da hipocrisia do partido no que toca
à retórica política sobre habitação versus a actuação concreta. Esta mais parecida
com a dos abutres imobiliários representados nos clássicos do cinema. O PCP
podia ter sido a musa de Frank Capra no filme You Can’t Take It with You, sobre
especulação imobiliária com os métodos feios do capitalismo desenfreado
americano dos anos 30.
Depois de usar a sua posição
na Assembleia Municipal de Aveiro para impedir o proprietário de valorizar o
seu imóvel com um projecto habitacional, o PCP, em 2014, adquire o imóvel cuja
valorização impediu. Não se sabe o preço desta compra, mas, lá está, seria o
preço desvalorizado de um imóvel que já se sabe impedido pela autarquia de ser
rentabilizado.
Feita a compra, há um plot
twist próprio de filme de Hollywood mas que parece mal num partido político — e
pior num partido comunista. Em 2019, o partido-proprietário (repito: comprou o
imóvel em relação ao qual havia agido para impedir de se valorizar) tratou de
promover um projecto imobiliário habitacional ainda mais ambicioso do que
aquele a que se tinha oposto (prédio de sete andares de apartamentos, ao invés
de cinco). Apoiando até a revisão do PDM de modo a permitir as ambições
imobiliárias do PCP.
Para o anterior proprietário,
segundo o PCP, era um grande crime contra o património destruir a Vivenda
Aleluia. Já para o proprietário PCP, afinal, a casa nem foi classificada, não
era nada de especial, até ficava ali baixa e esquisita entre os prédios altos
da rua, a conservação é demasiado cara, se não mesmo impossível, é melhor
usar-se o espaço para habitação.
Em 2023, o empreendimento que
vai substituir a Vivenda Aleluia está já a ser comercializado, com apartamentos
que chegam quase, quase ao meio milhão de euros. A propriedade do
empreendimento já não é do PCP, que fez uma permuta com o novo proprietário (
já lá chego). É esta a desculpa esfarrapada que dá o partido, fingindo que nada
tem que ver com os valores praticados
Sucede que o projecto foi
promovido pelo
PCP, enquanto proprietário do
imóvel. O objectivo do empreendimento nunca foi habitação social, ou acessível,
como constatava ironicamente Ribau Esteves, presidente da Câmara de Aveiro.
Afinal, as áreas e as tipologias das casas feitas a pensar em habitação
acessível não se confundem com as pensadas para habitação de luxo.
Aqui chegados, colocam-se
várias questões e perplexidades do maniqueísmo moral do PCP, extravasando em
muito a hipocrisia da oposição mais completa entre a retórica política anti
propriedade privada, anti especulação, pró-habitação pública, anti
proprietários, antis senhorios — e a actuação que descrevi nos parágrafos
acima, invejada pelo abutre imobiliário médio. Mas não: os especuladores são só
os outros. É uma velha tática política: acusar terceiros daquilo que os
próprios fazem. Esta hipocrisia é fácil, evidente e auto-explicativa.
Avancemos.
É também um partido que age de
modo a impedir um privado de concretizar um projecto — quando para si, para o
PCP, age
para viabilizar exactamente o
mesmo projecto. Um partido que promove a impossibilidade de valorização de um
bem, de modo a comprá-lo desvalorizado e, quando seu, valorizá-lo da mesma
forma que não permitiu a outro. Um partido que manipula — através da sua
participação nos órgãos de poder — o valor de um bem, para baixo, de modo a
adquiri-lo mais barato do que o seu potencial económico. Um partido que decide
numa autarquia (primeiro para um lado, depois para outro) marimbando-se para o
bem comum, defendendo somente o interesse (patrimonial) do PCP. Bem comum,
zero; finanças do PCP, infinito.
E a permuta? Tem de ser muito
bem esclarecida. O PCP já veio dizer que não recebeu dinheiro, somente trocou a
Vivenda Aleluia pela mesma área no novo empreendimento. À parte questões burocráticas
e legais, é negócio curioso.
Estimando ao longe, o valor
comercial de um terreno no centro de Aveiro, com projecto aprovado para 17
apartamentos caros, é substancial. Muito superior ao de uma fracção tipo loja,
mesmo se espaçosa, que, pelo noticiado, é o que o PCP irá receber. E a
diferença entre o valor (menor) da futura furação e o valor (maior) do terreno
com projecto aprovado? Foi um presente do PCP ao grande capital?
Mas o “affair Aleluia” também
não é só sobre o PCP. É sobre um Estado — no caso, local — que tanto toma
decisões num sentido como, poucos anos depois, decide ao contrário. Um Estado —
que dá ou não o favor a projectos e altera ou não o PDM — desatendendo ao
interesse e benefício público, mas consoante o projecto é proposto por A ou B.
Se o proponente tem influência, pode vir a favorecer, é amigo, faz parte da
clientela política — aprova-se o projecto. Se é um privado que não suborna nem
oferece prebendas nem é grande player do mercado— que fique entalado com o
negócio parado.
Também é um Estado de
pantomina onde os partidos políticos podem decidir sobre projectos e negócios
que os implicam financeiramente, como se fosse ético ou saudável ser
simultaneamente decisor político e parte interessada. E onde fica o
proprietário lesado do projecto indeferido em 2006? Não fica. Um partido e uma
autarquia têm por cá toda a impunidade para manipular o mercado imobiliário em
proveito do dito partido.
Donde, mais vale concentrarmo-nos só na hipocrisia
do PCP. Afinal nenhum partido escapa a proclamar princípios de que não está à
altura. É um tema leve. Assim, escapamos a ter de debater os favorecimentos
estatais e os negócios imobiliários curiosos e peculiares — apelidemos assim —
que o PCP faz, ao arrepio do bem comum e com prejuízos para terceiros. De caminho,
não afogamos de trabalho os tribunais administrativos, que por cá estão tão
assoberbados, pobrezinhos, que demoram décadas para algumas das decisões.
Aleluia.


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